A NOITE DE TERROR DE UM CARINHA DE RH


Benedito Milioni

Benedito Milioni

Distraído como sempre, não notou, o “carinha” de RH, todo poderoso gerente de certa empresa, na qual todos diziam ser ele o “Último e Mais Doce Biscoito do Pacote, tamanha eram a sua auto-indulgência e vaidade, que a noite já apagava o mundo real e acendia possibilidades e temores. Deitou-se no sofá da sua bela sala para descansar um pouco antes da batalha diária no trânsito de enlouquecer…e dormiu. Dormiu profundamente. Sua presença não foi notada pelos apressados faxineiros que apagaram as luzes, fecharam as portas do andar e correram para a avenida, resignados há muito diante da inevitabilidade das duas ou três horas de sofrimento dos transportes coletivos.

Quando ele, o carinha de RH, quase começava um sonho erótico, eis que acordou subitamente. Zangado, porque impedido de seguir no que prometia delícias, levantou-se e tropeçou na mesa de centro que estava diante do sofá, quando, então se deu conta de que ainda estava no escritório. Entrou no banheiro massagens com a água fria da torneira, ajeitou os cabelos, encantou-se mais uma vez coma imagem que viu no espelho, apanhou com uma das mãos a sua pasta executiva, já tendo enfiado o paletó, dirigiu-se à porta… e ela estava trancada! Tentou várias vezes abri-la, despejou uma série de palavrões ao nível de boteco ordinário, chutou a pobrezinha e desistiu. Tentou usar o telefone interno para chamar a Segurança do prédio. Mudo. Tentou uma ligação por via da linha externa. Muda. Tentou seu celular. Sem bateria. Tentou fazer funcionar o celular com o carregador. Sem sinal. Correu para os computadores…ligou o dele…acionou o note-book…a Internet!…era só entrar no Messenger e avisar a alguém que certamente estaria conectado…sempre tinha alguém…não vai ser agora que…NÃO! ESSA NÃO! A MALDITA MENSAGEM DE QUE NÃO ERA POSSÍVEL FAZER CONEXÃO, TENTE MAIS TARDE! Desesperado, tentou a janela…trigésimo andar de um prédio em centro de terreno…quem iria ouvir seus gritos?

Sentado na sua bela cadeira giratória, caríssima, muito mais que o equipamento de projeção que não autorizara comprar para a sala de Treinamento, já exausto, estressado, sentiu imobilizarem-se seus braços e pernas, como que acorrentados por mãos invisíveis e viu o que lhe fez secar por dentro, aterrorizado, desesperado: ele mesmo, o espectro dele mesmo, porém vestido com uma toga negra, imensa, pregueada, que o fazia maior ainda, bem como mais grave e implacável a sinistra expressão do seu rosto. Trêmulo, ouviu a voz que dizia: “Sou o juiz de você mesmo. Sou a Acusação que Não Cala. Sou a Defesa Que Apenas Mente. Sou o Teu Espelho Quebrado. Sou a Tua consciência! Meu rosto é a tua máscara! Minha dor é a tua dívida! Ouça-me, porque o que tenho a dizer não é feddback! É avaliação mesmo!”

“Tens sido omisso diante das práticas erradas em RH, como permitir que o peso do custo Brasil dos encargos sociais seja transferido para assalariados, obrigatória e unilateralmente transformados em “pessoa jurídica”, se quiserem seus empregos mal pagos. Tens sido omisso diante da cobrança descabida de resultados,mascarada em “desempenhos crescentes em nível de excelência”. Tens sido omisso quanto ao circo em que vem se transformando muitos eventos de RH, em nome de um tal “enfoque lúdico” e do experimento vivencial sem limites, a vitória da forma divertida sobre o conteúdo ignorado! Tens sido até leviano por não cobrar, muito menos contribuir na construção de um código de ética para RH! Tens sido cruel em permitir, direta ou indiretamente, as práticas de seleção de pessoal, marcadas pela humilhação das pessoas, por sua manipulação grosseira e desumana! Digo-te: não és nada do que deverias e nada és do que pensas ser  em teu coquetel de vaidades, egocentrismo e alienação! Vou-me, desapareço agora mesmo nas tuas entranhas e prometo voltar a te atormentar todas a noites!”

Porta de saída abrindo e seu telefone celular berrando, finalmente livre do que pensou por um momento ter sido apenas um pesadelo (depois da feijuca e das três cervas do almoço não poderia ser outra coisa!), sobre a mesa ele viu que havia um livro que nunca esteve lá, disso tinha certeza. Era um bonito livro, de capa colorida, com o título RH PARA VALER: A TÉCNICA E A ÉTICA, cujo autor…estranho…caramba!…mas que coisa maluca!…era ele mesmo, LÁ ESTAVA  O SEU NOME! Apressado tomou o livro entre as mãos, abriu-o e viu que todas as páginas estavam em branco! Passados três segundos, conseguiu entender tudo o que tinha acontecido desde o momento que acordara do pesadelo e, no encerramento desse artigo, fica para o (a) leitor(a) a resposta: qual teria sido a conclusão dele?

 Escrito por Benedito Milioni

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