A PASTELRIZAÇÃO DO CONHECIMENTO


Benedito Milioni

Benedito Milioni

Antes que a revisora e a editora me fulminem, devo destacar que o título do artigo está grafado corretamente: não se trata da “pasteurização” criada por Pasteur para a eliminação de bactérias do leite, processo baseado no seu aquecimento  “in natura” em alta temperatura e o súbito esfriamento, o que leva as bactérias que podem ser nocivas para a saúde humana ao desejado estado de óbito, sem direito a velório nem carpideiras. O foco do artigo, caras e belas meninas que me corrigem os barbarismos de cada mês,  é a  “pastelrização” do Conhecimento, que  já suscita choros convulsivos e esgares na face dos profissionais de RH realmente preparados para a natureza estratégica da sua missão.

Pastel é bom, não é? Seja de carne, de calabreza, de queijo, de palmito ou de qualquer outro recheio (no dos muito pobres é recheio é de vento…, segundo a chamada voz rouca das multidões), em São Paulo rivaliza com a pizza no campo do que poderíamos chamar como “sabor tipicamente paulista”. Nas feiras livres, é uma tentação a que poucos resistem e, no final da noite, quando demolidos pelas baladas, fome atroz a exigir atenções, nada mais saboroso que se esbaldar na barraca dos pastéis das feiras livres e em muitos outros pontos da cidade. Mas em RH, no contexto da formação, disseminação e mobilização do Conhecimento, o pastel está servindo como ego auxiliar para uma  comédia pastelão, sem pedir desculpas pelo oportuníssimo trocadilho: está feia a coisa que cara de criança tomando purgante e, se nada for feito, aí mesmo é que a porca vai torcer o rabo!

Pastel é bom, mas deve ser consumido bem rápido, sem pensar nos seus perigos (gorduras, colesterol, perversos elementos entupidores de inocentes artérias), pode magoar os delicados lábios dos mais afoitos, queimar o nariz dos que não têm intimidade com o acepipe, pingar eternas manchas de óleo na gravata ou na blusa de seda,  se for o caso de uma gentil donzela, além de não alimentar, não repor energias, não facilitar a vida da engenharia interna, sobretudo a que deleta as sobras dos “arquivos” e só mesmo a gula e a volúpia é que nos autorizam a ingestão dessas gostosuras que bem poderiam ser inofensivas. Pastelrizacão do Conhecimento já que posso me esbaldar em alegorias e analogias,  é muito mais que danoso: é banalizar, estupidificar e reduzir a busca pela sabedoria a mera figura literária ou inspiração para frases de apara-barro das rodas dos caminhões.

E como tem sido pastelrizado o Conhecimento? Exploremos essa analogia por partes, para que seja entendida: primeiro, tome-se a massa do pastel e a aceitemos como embalagem para tudo, portanto uma coisa qualquer a que se intitule “treinamento”, dentro dela despejemos qualquer elemento mastigável e que tenha sabor atraente (o conteúdo do treinamento) e, finalizando, submetamos essa alquimia dos infernos a uma fritura que podemos, no caso, assumir como…uma metodologia envolvente e está pronto o torpedo para ser disparado contra o peito do Conhecimento, mas que deixa felizes e entusiasmados seus dóceis e submissos comensais. E o que acontecido com os conteúdos das ações de Educação Corporativa, notadamente com aqueles que demandam estudo cuidadoso e um processo sofisticado de elaboração cerebral? Mais e mais vêm sendo reduzidos ao olodum corporativo (sem perder o respeito pelo Olodum que é magia pura da Bahia), em que estão se transformando as atividades com grupos, com música, baticum,  coreografia e seus complementos, temperados por uma sucessão contínua e massacrante de cenas de filmes comerciais, escolhidas como o supra-sumo da quintessência da sabedoria e tome-lhe, como exemplo recentíssimo  a Miranda vivida por Merrryl Streep em “O Diabo Usa Prada”, no lugar de Peter Drucker,  porque o segundo exige que se pense muito e a primeira é apenas a cara feia e repulsiva do vale-tudo em nome do tudo que valha algo (outro trocadilho oportuno) e os felizes “especialistas em treinamento”  rotulam essa mistura de nada com coisa alguma como uma “avançada metodologia de aprendizado”, na verdade um pastel tão banal como um daqueles de feira livre em bairros de baixo poder aquisitivo.

Qualquer coisa cabe nesse pastel treinatório, desde que tenha sabor, seja cheiroso, quentinho e satisfaça paladares pouco exigentes, atendidos por fornecedores que apenas querem vender sua mercadoria e que cada um faça dela o que quiser. O Conhecimento, antes “winzipado” em ilegais apostilas e cópias piratas de livros, vem passando por um processo agudo de “apequenamento” por parte de gente que não quer pensar, para atender a outras que nem sabem que é preciso pensar. Temo que o próximo passo seja outra noite de queima de livros…

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