Ex-pedreiro estuda engenharia e quer construir moradia a baixo custo


Wildiner trabalhou em lavoura na infância e como pedreiro na adolescência.
Em 2010, ele passou no vestibular para engenharia civil da Unicamp.

O estudante que há dois anos passou em 18º lugar no vestibular para engenharia civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) trabalhou na lavoura de café durante a infância, na cidade de 3.000 habitantes onde nasceu, Cordislândia, em Minas Gerais. Na adolescência seguiu a profissão do pai, e foi servente de pedreiro, após concluir o ensino médio. A mãe é empregada doméstica. Não satisfeito com que a vida podia lhe oferecer Wildiner Estainer Batista, de 19 anos, criou oportunidades por meio da educação. Estudou na rede pública, se preparou sozinho para o vestibular e conseguiu vaga em um dos cursos mais concorridos da Unicamp, uma das instituições mais respeitadas do país. Quando se formar, Wildiner quer aliar a experiência como pedreiro e o conhecimento da engenharia para criar uma empresa de construção de moradias a baixo custo.

Wildiner se esforça a evoluir cada vez mais. Mora em Campinas, na residência estudantil da Unicamp, e passa a maior parte de seu tempo envolvido em vários projetos da universidade. Pouco viaja para matar a saudade da família em Pouso Alegre (MG).

Para se manter como universitário em Campinas, o mineiro recebe uma bolsa-auxílio da universidade e, em contrapartida, atua em alguns projetos. Se no início do curso preferia se dedicar exclusivamente aos estudos, hoje a rotina é diferente. Além de estudar, o jovem faz parte da liga de xadrez da Unicamp e integra grupos que de fomento ao empreendedorismo, como o Mercado de Trabalho em Engenharia (MTE) e o Choice da Artemisia. Ele ainda foi premiado com o terceiro lugar no Concurso Nacional Siemens Student Award, que reúne propostas de soluções sustentáveis.

Wildiner conta que foi na 6ª série que sua vida mudou. O então professor de geografia, Murilo Antonio Simões Junior, o incentivou a prestar vestibulinho para um curso técnico no campus Inconfidentes do Instituto Federal, em São Gonçalo, a 120 quilômetros de sua casa na época, depois que concluísse o ensino fundamental.

“O caminho natural era continuar onde eu morava. Mas o professor convenceu minha família, me incentivou e fui estudar no instituto federal (após ser aprovado no vestibulinho). Saí de casa aos 14 anos para morar no alojamento da escola, só voltava de dois em dois meses porque não tinha dinheiro, mas não foi coisa do outro mundo, me adaptei rápido”, diz.

Durante o ensino médio, Wildiner conheceu um amigo “muito inteligente” que iria prestar o vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Decidiu que queria tentar uma vaga também. Concluiu o ensino médio aos 17 anos e voltou para a casa família, que havia se mudado para Pouso Alegre. “Passei o ano trabalhando como servente de pedreiro com a ideia de cursar ITA, estudava à noite por conta própria. O trabalho era pesado, mas não tão ruim, eu até gostava, tanto que faço engenharia civil.”

“O objetivo é sempre ir mais longe, quero correr e não parar. O prazer está na caminhada.”

Wildiner Batista

Wildiner prestou o vestibular do ITA, mas não passou. Foi incentivado a mudar os planos e no ano seguinte, em 2010, fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e a prova da Unicamp. Pelo Enem, conseguiu vaga na Ufscar, mas optou pela Unicamp.

A vontade de crescer ainda o levou a ser selecionado como bolsista pela Fundação Estudar, uma instituição que apoia jovens estudantes com auxílio financeiro e orientação vocacional. Na última seleção anual, foram beneficiados 29 jovens de todo o país entre 6.000 inscritos. “Identificamos jovens brilhantes e os apoiamos em suas carreiras, queremos pessoas que querem causar impacto no país”, afirma Tiago Mitraud, gerente de produtos da Estudar. Um dos critérios avaliados é o ‘salto’ que o estudante já deu e os planos de onde gostaria de chegar.

O jovem pretende aprender a falar inglês para fazer um intercâmbio na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. “O objetivo é sempre ir mais longe, quero correr e não parar. O prazer está na caminhada.”

Ser pedreiro foi super válido
Atualmente o estudante não precisa ajudar financeiramente os pais. A família já conseguiu pagar o terreno onde a casa foi construída, em Pouso Alegre. Porém, quando eles se mudaram não havia nem piso. Quando se formar, não pretende voltar para Minas. Mas por enquanto, não sabe para onde seguir. Quer reunir o empreendedorismo e a transformação social. Para isso, pensa em criar uma empresa de construção de moradias de baixo custo.

“Minha experiência como servente de pedreiro foi super válida. Na minha história também tem a carga emocional forte. Uma frase que meu pai me disse me marcou muito: ‘dinheiro compra, mas só trabalho faz. ’”.

O jovem diz que muita gente de sua cidade não entende bem o que ele estuda e a importância da instituição em que está, porém os pais têm noção da grandiosidade. A mãe, doméstica, se orgulha ainda mais de Wildiner quando sabe que muitos filhos de patroas, mesmo diante de boas condições financeiras, não conseguem entrar na faculdade. As conquistas não o fazem se gabar. Pelo contrário. Acha que pode ir além. Para ele, as vitórias só foram possíveis porque sempre teve “pessoas certas” por perto. “Se não fosse aquele professor do ensino fundamental não estaria aqui.”

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