MADAME VAI DE MIOJO OU DE LAZANHA?


Benedito Milioni

Benedito Milioni

Certa vez, na Cantina da Concettta, em pleno Bixiga, veneranda região de São Paulo, capital, ouvi de uma adolescente ao dirigir-se para seus pais assim que sentou-se à mesa: “Será que aqui tem miojo?”  O pai da moça quase ficou apoplético ao responder que “numa cantina com a tradição do Bixiga, falar em macarrão instantâneo era o mesmo que dizer que a Sofia Loren perde de goleada para vetustas apresentadoras da TV brasileira: pode dar um tragédia!”  Eu ri um pouco, porque o rosto do furibundo pai estava mesmo mais para risos que para pungentes solidariedades e ainda mais porque o ar de inocente da sua filha passou a mostrar-se como deboche puro!  Fiquei pensando, enquanto terçava armas com rondelis e fetuccinis : será que isso tem a ver com o RH?

E não é que tinha mesmo? Vejamos o miojo: baratinho, rápido para ser feito, não requer prática alguma na cozinha, até com as “bielas travadas” ao chegar de noitadas etílicas,  o cidadão pode fazer um miojinho esperto para enfrentar as ebulições das entranhas! Aquela massa disforme com ar ameaçador até que serve para mitigar  uma fome de momento, mesmo que não alimente nada e ainda vem com pacotinhos de sabores os mais variados, podendo ser substituídos, caso se deseje variar um pouco aqueles sabores insossos (perdão pelo trocadilho, mas necessário nesse texto!) por “katchup”, sobras de molho agridoce da comida chinesa do mês passado, “shoyu”, mostarda, maionese e, certa vez, numa ousadia de conseqüências funestas da minha parte, até mel tasquei naquela “coisa” que me lembrava vagamente um honesto e peninsular macarrão! Já uma lazanha requer arte para ser arquitetada! Deve ser construída com a solenidade inerente às oferendas aos deuses, hoje, segundo minha feroz defesa, uma habilidade em nível de pós-doutorado culinário: cada ingrediente e cada camada são delicadas combinações de sabores apurados com promessas de glórias supremas para as papilas gustativas e  festa pantagruélica para o sistema digestivo. Uma lazanha, reverente que sou e quase virtude pagã pura,  deve ser feita por mãos purificadas em águas de chuvas primaveris e durante muito tempo treinadas em delicados gestos de afagos em rostos amados, porque uma lazanha é amadíssima rainha no reino das cantinas, das tarantellas e dos operosos mestres das pastas e jamais chegaria ao nível da decrepitude de um macarrão instantâneo! Se não houvesse a diferença aqui descrita, saberíamos da morte por  puro desgosto do conhecido gato Garfield, que despreza sardinhas e desenxabidas rações das pet-shops por uma dentada numa lazanha!! Uma lazanha, portanto, não é o mesmo que macarrão instantâneo, que pode ser feito por qualquer um e apenas causam aflições a dentes merecedores de algo melhor, os pobrezinhos!

Reduzir a carga horária de programas com toda a tecnologia de Treinamento e Desenvolvimento, para algo em torno de seis horas e meia de trabalho, isso num curso de oito horas, é oferecer macarrão instantâneo como se fosse uma lazanha daquelas de se comemorar o dia das Mães! Compactar o processo seletivo para testinho de meia hora e entrevistinha de quinze minutos, após uma dinâmica de grupo com trinta candidatos em duas horas, é o mesmo que prometer nutrição plena a um halterofilista, com uma porção de macarrão instantâneo daquelas que cabem num prato de sobremesa! Montar uma tabela salarial, após meia dúzia de telefonemas e rápidas consultas pela Internet, é o mesmo que oferecer macarrão de três minutos como prato para disputar premiações de culinária entre mestres cujas cozinhas são templos! Copiar um formulário de um colega e dar uma reduzidinha aqui e outra ali e aplicar na empresa a título de pesquisa de clima é o mesmo que supor no macarrão instantâneo a eternidade que cabe numa lazanha daquelas que é feita para o jantar que se segue a uma reconciliação entre dois que se amam e que antecede uma noite de…bem…mantenhamos a linha de pureza do artigo ( ih! Ih! Ih!).

O fato é que a comunidade de Gestão de Pessoas tem que reagir contra essa minimização da sua tecnologia a um patamar que mais atende interesses menores, próprios de quem não tem realmente compromisso algum com a alma e a missão ética dessa área. Simplificar procedimentos e mesmo uma tecnologia é tarefa para mentes preparadas e experientes, enquanto torná-los menores, coisinha assinzinha fácil de ser feita apenas destaca o nanismo intelectual e criativo que campeia solto no meio dos que do RH só valorizam o dinheiro que dele podem arrancar.

2 pensamentos sobre “MADAME VAI DE MIOJO OU DE LAZANHA?

    • Marcela…

      Professor Milioni aborda os assuntos de uma forma descontraida e nos alerta para as necessidades do RH de uma forma bem realista…

      Continue acompanhando nosso blog e todas as sugestões e críticas serão muito bem vindas.

      Curta nossa fanpage

      Muito obrigado pelo seu depoimento.

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