Assédio Moral


Bernardo Leite

Bernardo Leite

O título parece forçar um pouco a barra ao lembrar o famigerado e discutidíssimo Assédio Sexual. Mas não há nada a forçar, principalmente porque o tema não precisa de nenhum outro atributo para ter a importância que merece. Outro aspecto é de que o tema pode parecer novo, mas, a discussão sobre o Assédio Moral não é recente, já ocorre há algum tempo, como demonstramos a seguir.

O tema harcèlement moral (assédio moral) na França; bullying (tiranizar) na Inglaterra; mobbing (molestar) nos Estados Unidos e murahachibu (ostracismo social) no Japão recebeu a primeira denúncia de uma jornalista inglesa, Andréa Adams que, após dois documentários sobre o assunto, com enorme repercussão, escreveu o livro “Bullying at Work” em 1992. Andréa faleceu, de câncer, em 1995 em plena campanha para transformar em delito o psicoterrorismo no trabalho como ocorreu com a questão do assédio sexual. Mas hoje, ainda apenas a Suécia, Alemanha, Itália, Austrália e Estados Unidos tem legislação para proteger as vítimas do assédio moral. Em nível mundial as pesquisas comprovam que as enormes quantidades de vítimas do Assédio Moral sofrem graves depressões, quebra de auto-estima, desenvolvem problemas de saúde generalizados, problemas familiares e alguns chegam a cometer suicídio.
Mas o que é, realmente, o Assédio Moral?
Aqui sim, em comparação com o assédio sexual, o assédio moral também é fruto da ação da chefia, que no uso do poder que lhe é outorgado, reserva-se, por vezes, o direito de torturar o seu subordinado de várias maneiras. Aqui vão alguns exemplos:
-marcar tarefas com prazos impossíveis,
-tomar o crédito por idéias e ações de outros,
-retirar a autoridade e autonomia do subordinado, (algumas vezes utiliza-se o “by pass”, isto é, dar ordens diretas à equipe do subordinado),
-colocar o subordinado na “geladeira”,
-bloquear informações prejudicando seu desempenho,
-ignorar solicitações e sugestões de melhorias para dificultar a atuação do subordinado,
-humilhá-lo com críticas públicas,
-reduzir seu nível de responsabilidade,
-criticar indiscriminadamente,
-espalhar boatos pejorativos e etc., porque a imaginação é sempre muito profícua.

É evidente que muitos dirão que na função de chefia algumas “ações educativas” são necessárias. Particularmente diria mais ainda: qualquer chefe tem o poder e o direito de demitir qualquer subordinado, mas, torturá-lo psicologicamente, não faz parte dos seus direitos, em nenhuma hipótese! O poder termina na ação administrativa.
É importante que façamos clara distinção entre as características de assédio moral e a pressão da chefia pelo cumprimento de prazos, metas e objetivos do negócio. Mais ainda, entendemos que a pressão da competitividade contagia a ação das chefias tornando-os exigentes e, muitas vezes fazendo-os considerar que seus subordinados podem fazer mais do que imaginam que podem. Sem dúvida não discordo desse ponto de vista. Reforço que a exigência de superação sempre está acompanhada de significativa dose de confiança e preocupação pelo desenvolvimento dos subordinados. A chefia pode, e deve, pressionar com freqüência e exigir que seus subordinados se superem. Mas presumo que fique claro que não é a isso que se refere o assédio moral.

A pressão e a exigência da chefia é identificada com dados, metas, desafios. O assédio moral caracteriza-se por comportamento inconsistente, infundado ou incoerente, de maneira persistente e repetitiva. O assédio, normalmente, isola o subordinado.

E a solidão de quem recebe um assédio moral é, também, extremo porque o medo do desemprego de um lado e o temor causado pela pressão cala as vítimas que não podem contar sequer com o apoio dos colegas que tem receio de tornar-se as próximas vítimas. Por outro lado a queixa do fato aos níveis superiores na empresa pode consignar-se como choque de personalidades, ou egos, resistência á mudanças, nova forma de administração, reorganização ou, simplesmente, são rejeitadas.

Isso tudo porque, uma das características mais freqüentes no perfil do chefe torturador é o seu “bom mocismo”. Ele sempre está posando de bem intencionado, está sempre pensando no melhor para seu subordinado e, na presença de outros, seus discursos exploram o inverso do seu comportamento. É um fato muito característico, parecendo que ele precisa reforçar esse comportamento para acreditar que o pratica, ou fazer os outros acreditarem.

Mas porque esse comportamento disfuncional em algumas chefias? 

Infelizmente somos obrigados a iniciar pelo tipo de chefia que faz, do seu poder, instrumento de coerção e submissão. Poderíamos dizer que em alguns casos isso pode ocorrer porque alguns chefes nunca tiveram poder e seu uso pode inebriar ou até, na época em que era subordinado foi torturado pelos seus chefes fazendo-o acreditar que esse é um comportamento natural.
Outros o fazem por simples insegurança. Sim é bastante comum o sentimento de insegurança em chefias que se sentindo pressionados pelos superiores e pelos resultados cobrados colocam, por sua vez, a manutenção dos seus empregos como verdadeira obsessão. Neste caso então, subordinados competentes, críticos e inteligentes apresentam-se como ameaças que precisam ser extirpadas. Mas como demiti-los se são o que são? Aí começa o assédio moral.

Em outros casos são comportamentos típicos de desvio de caráter, apenas. Mas, em suma, em todos os casos descritos deparamo-nos com uma atitude que se configura como nada mais do que uma afrontosa ofensa àquele conceito tão discutido e pouco praticado, a ÉTICA.

O problema também é que nas empresas, de maneira geral, há uma certa aceitação à “necessidade de sobrevivência” e de seus comportamentos típicos, que de alguma forma sempre estão a serviço de alguma ação não ética e, freqüentemente, destruidora da produtividade, da inovação e da colaboração entre as pessoas. Isso prejudica o próprio desenvolvimento do negócio.
Infelizmente esses comportamentos se repetem em cadeia contaminando a estrutura e fazendo com que todos estejam sempre se defendendo.

Tim Field, autor de “Bully in Sight” (tirano na mira), outro livro sobre o tema, afirma: “Os que podem podem. Os que não podem, tiranizam”.

Ele próprio sugere alguns conselhos básicos para quem quer reagir a um chefe tirano. Incluo algumas de suas sugestões nas recomendações que fazemos a seguir:

-Lembre-se de que um chefe tirano projeta em suas vítimas as próprias fraquezas morais e profissionais, assim não as introjete.
-Supere a falsa percepção de que o modo como as coisas estão ocorrendo trata-se apenas de uma forma dura de chefiar ou, ainda, de uma reorganização empresarial. Você pode até concordar com os objetivos ou ainda entender que a pressão é inerente ao negócio mas questione os meios que lhe são incômodos ou lhe pareçam imorais.
-Anote tudo, não é um único incidente que conta, mas a regularidade com que acontece, o seu padrão e o conjunto. O que caracteriza uma ação de assédio moral é a repetição dos fatos e a inconsistência do objetivo. Procure entender o “modus operandi”.
-Guarde cópias de cartas, memorandos, e-mails.
-Ao sentir os efeitos do assédio moral como: medo, angústia, pavor de ir ao trabalho ou às reuniões ás quais é convocado pare para pensar e procure ajuda. Não se esqueça de que essa situação vai alterar o seu comportamento tornando-o inseguro no trabalho e agressivo na sua família. Não é improvável que a família não o compreenda no início. Até porque ela também teme pelo seu desemprego e vai sugerir que você suporte a pressão, tornando-o mais confuso ainda. Converse com um amigo ou procure ajuda profissional. Pode até ser o médico da empresa ou o psicólogo.
-Não ceda a tentação inicial de desistir. É normal sentir vergonha, culpa e medo, mas você deve tentar manter sua auto-estima. Não facilite a ação do chefe para sua destruição. Você sempre pode reagir, transferir-se ou, até, demitir-se. Na opção entre seu emprego e sua saúde física e psicológica, fique com esta última. A vida continua.

Finalmente este é um assunto que deverá, ainda, ser bastante discutido e aprofundado no nosso meio empresarial. Com isenção de ânimo e muita objetividade, até porque, como já dissemos, interfere decisivamente nos aspectos de resultados das nossas Organizações.
E nesses tempos de consciência social, de ressurgimento da Ética aliado a pressão pela competitividade do nosso mercado é inevitável a reflexão. Gostaríamos, inclusive, de seguir os passos dados pela análise do tema do assédio sexual, conduzindo o Assédio Moral á um aprofundamento e á sua regulamentação transformando-o em delito, também.
Parodiando um antigo comercial de TV:
“Assédio Moral! Você ainda vai ter um”.

 

Escrito por Bernardo Leite

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