A SÍNTESE NÃO PODE PRECEDER A TESE!


Benedito Milioni

Benedito Milioni

Conta-se, ou passa-se a contar, não sei bem se ouvi essa história ou se ela resulta da minha cabeça de escrevinhador, que num tempo muito antigo o Mestre do Saber, perambulando pelos campos atrás de uma borboleta de asas polvilhadas em  poeira de estrelas, deparou com um jovem aprendiz. Este, num esforço enorme para subir por uma escada, cuja extremidade superior apoiava-se numa nuvem feita de fiapos de barbas de antigos sábios, maladizia sua incapacidade para subir, mesmo que quase explodisse músculos e veias no afã de subir, alcançar o topo da escada e, de lá, o Conhecimento.

Aproximando-se, o Mestre viu o que já sabia estar ocorrendo: os cinco degraus de cima não eram precedidos por outros, portanto só havia degraus na parte superior da escada, o que impedia o progresso da escalada do aprendiz, malgrado seu esforço. Era sólida e apoiava-se em base firme a escada, mas a falta de degraus na sua parte inferior era mesmo um formidável obstáculo para o Aprendiz. Arfando, suor escorrendo pelo corpo todo, o Aprendiz mal ouviu o cumprimento do Mestre, perdido ainda em blasfemar e se sentir a mais abandonada das criaturas, querendo saber quem levara os degraus ou não os tinha posto na escada ao construí-la.

O Mestre, uma vez tendo obtido a atenção do obstinado e confuso Aprendiz, propôs-lhe uma ajuda. Em resposta foi solicitado que girasse a escada em 180 graus. E o Aprendiz subiu correndo os cinco degraus, agora ao alcance dos seus pés e mãos…e desabou no chão, mergulhando no vazio de onde estaria o sexto degrau e, daí, os demais. Cuspindo poeira e mais impropérios, maldisse a vida de vez, proclamou a sua desistência e soluçou um pranto típico dos frustrados no melhor dos seus intentos.

O Mestre, paciente, manso, compreensivo, esperou que o Aprendiz enfim despejasse as dores da agoniada experiência de momento e, sentando-se ao lado do sofrido jovem, perguntou-lhe: “Meu filho, diga-me o que aprendeu nesses últimos minutos?”  Como ele nem abriu a boca, mas arregalou os olhos como muda resposta, mostrando surpresa com a pergunta e nenhuma possibilidade de respondê-la, o Mestre disse-lhe pedagogicamente: “Meu jovem, você jamais poderá inovar ou renovar pelo menos se não tiver feito o básico, o essencial! Você tem que, primeiro, preparar o campo e depois engravidá-lo com as mais fecundas sementes! E é assim que funcionam as coisas na Vida! Um dia será escrito nos textos sagrados de todas as religiões uma filosofia em torno do princípio de que há tempo certo para tudo, tempo para plantar, tempo para colher, tempo para rir, tempo para chorar, tempo para o amor, tempo para a dor! Ninguém jamais chegou ao topo sem mergulhar os pés na terra solta da base da montanha, assim como nunca se sentou em uma pedra sem ter, antes, esfolado os joelhos ao tropeçar numa delas pelos caminhos e desvios da Vida!”

Essa história ocorreu-me à cabeça quando um colega de RH pediu-me material sobre Planejamento Estratégico de RH e Balanced Scorecard na Gestão de Pessoas e, se possível, os meios para implantar a Gestão do Conhecimento em sua empresa. Sempre disposto a ajudar, perguntei ao colega porque ele tinha interesse na citada tecnologia. Respondeu-me que “estava atrás das novidades, das inovações em RH,  de tudo que pudesse ter em mãos do mais moderno”  Curioso, porque toda situação de transformação sempre mexe com as antenas do nosso muy amado e leal povo de RH, de quem faço parte, feliz da vida, perguntei ao colega se ele já tinha preparado a empresa para a Qualidade Total, se já tinha conduzido algumas ações básicas como a implantação para valer do espírito de equipe, do foco irrestrito no cliente, da busca incessante da prevenção de perdas, refugos, desperdícios, erros e não conformidades, da estratégia da liderança técnica e ética, dentre outras ações estruturais hoje em dia indispensáveis. O colega me olhou com a conhecida carinha “de paisagem” e me perguntou: “Uai! E precisa isso tudo antes! A gente não pode ir logo pras cabeças?”

Lembrei-me da história do Mestre e do Aprendiz condensada nos parágrafos iniciais acima, suspirei e, enquanto me deixava envolver pelas lembranças das antigas aulas sobre Filosofia, reverberando,ainda, nas circunvoluções do cérebro as longas frases que explicavam as questões sobre Tese, Antítese e Síntese, disse para o colega “Meu amigo, faça um dever de casa! Pense e depois me explique porque a síntese não pode preceder a tese!”

Tomara que meu telefone toque e, por ele, ouça o colega e o resultado sobre a reflexão proposta…

Escrito por Benedito Milioni

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